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Entrevista com Xiang Ping
(ex-Reitor da Universidade de Medicina Chinesa de Nanjing)
BeijaFlor – A medicina tradicional chinesa tem o seu fundamento na cultura chinesa. Ela pode ser compreendida por um ocidental?
Xiang Ping –Todas as culturas têm as suas medicinas tradicionais. A medicina tradicional chinesa (MTC) é uma das essências da cultura chinesa mas tornou-se conhecida em todo o mundo pela eficácia do seu tratamento.
B.F. –A Organização Mundial de Saúde considera como iguais a MTC e a medicina ocidental?
X.P. – A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem por objectivo promover a saúde na sua globalidade. Neste sentido, dá importância não só à medicina ocidental mas também à medicina tradicional chinesa. Na sede da OMS, em Genebra, existe um departamento para a MTC. Alguns dos seus funcionários trabalham em diferentes regiões da China e do mundo. A MTC é reconhecida e tem grande peso em mais de dez países do mundo, entre os quais, Singapura, Tailândia, algumas regiões da Austrália e do Canadá, América do Sul e África.
B.F. – Mesmo quando não é reconhecida a nível oficial, a MTC é bem aceite pelas pessoas em geral...
X.P. - De facto, a partir dos anos 80-90, a MTC começou a suscitar um interesse cada vez maior por parte das pessoas em geral e também de muitas autoridades governamentais. Em Londres, há mais de um milhar de clínicas de MTC. Algumas delas estão a funcionar em universidades e hospitais. Há dois anos, na Noruega, o ministro da Saúde abriu um debate público para discutir a questão do reconhecimento da MTC. Em Malta, o ministro da Saúde assinou um acordo com a República Popular da China para que, com a ajuda de profissionais da Universidade de MTC de Nanquim, pudesse ser estabelecida uma agenda de tratamento médico naquele país.
B.F. – Em Portugal, no ano passado, houve uma proposta de lei apresentada e discutida na Assembleia da República para regulamentar a prática da acupunctura mas não da MTC. O que pensa sobre isso?
X.P. – É um processo que leva tempo, naturalmente. Por exemplo, nos EUA, a acupunctura é legal em alguns Estados do Norte. A acupunctura é um tratamento sem drogas e sem efeitos secundários. No que respeita à medicina herbal chinesa, foram levantadas algumas questões quanto à existência de metais pesados e pesticidas nas plantas. Assim, vai ser preciso submeter as plantas a um tipo de preparação, de acordo com as normas internacionais, para abrir o nosso mercado a outros países.
B.F. – Qual é a diferença entre reconhecer a medicina tradicional chinesa ou só a vertente da acupunctura?
X.P. – A acupunctura é uma componente essencial da MTC mas é apenas uma parte. É muito importante o reconhecimento de todo o sistema da MTC. O tratamento de acupunctura é baseado na filosofia da MTC. Por isso, sem essa orientação, a acupunctura não consegue preencher o que devia.
B.F. – Na China, a medicina ocidental predomina sobre a medicina tradicional chinesa?
X.P. – Nos hospitais, temos mais medicina ocidental do que medicina tradicional chinesa. No entanto, em muitos hospitais, existem departamentos de MTC, porque ela é muito bem aceite pelas pessoas em geral. Os médicos da medicina ocidental podem também prescrever plantas e tratamentos de MTC. Na China, a medicina ocidental e a MTC têm a mesma importância. Eu encorajo os médicos de medicina ocidental a aprenderem MTC e os médicos de MTC a aprenderem medicina ocidental. Ficam aptos a praticar as duas medicinas.
B.F. – Há incompatibilidades entre as duas medicinas?
X.P. – As duas medicinas têm um objectivo comum: melhorar o efeito do tratamento para beneficiar os pacientes. Na China, são os médicos jovens, mais virados para a medicina ocidental, que têm mais preconceitos em relação aos médicos da MTC. Mas, normalmente, quando estes jovens ficam mais velhos, passam a adoptar as duas perspectivas. Respeitam-se uns aos outros e dão-se muito bem numa partilha de conhecimentos e práticas. Penso que esta situação está também a acontecer na Europa. Leva tempo. Talvez, no começo, os médicos da medicina ocidental não compreendam a MTC. Mas, gradualmente, vão começando a notar os seus benefícios.
B.F. – Há já muitos casos destes...
X.P. - A Dra. Wang Lingling é uma perita em acupunctura. Nas conferências que tem dado em muitos países europeus, a maioria dos participantes são médicos da medicina ocidental, interessados em conhecer a MTC. Têm necessidade de aprender novos métodos de tratamento para beneficiar os seus pacientes.
B.F. –A medicina tradicional chinesa é um reflexo da cultura chinesa?
X.P. - Não é um reflexo. A MTC tem a sua base na cultura chinesa. É uma espécie de integração do pensamento filosófico chinês. A MTC está intimamente ligada à matemática, física, química, astronomia, biologia, bem como à música, dança, literatura e muitas outras disciplinas. Aconselhamos todos os estudantes chineses de MTC a lerem "O Livro do Imperador Amarelo", que é uma espécie de enciclopédia da cultura chinesa. O mesmo acontece com os estudantes estrangeiros. Se não tiverem qualquer ideia da cultura chinesa, ser-lhes-á mais difícil apanhar o sentido profundo da MTC.
B.F. – Como é que a cultura chinesa enquadra o ser humano no mundo?
X.P. – Os seres humanos têm uma relação muito estreita com o meio ambiente natural, a sociedade e a natureza. Mas, isto é uma afirmação em termos gerais, pois não é possível explicar em algumas palavras todos os aspectos da cultura chinesa. E, de facto, mesmo em algumas explicações, nem sempre estamos a falar dos mesmos conceitos. Na cultura chinesa, conceitos diferentes têm significados diferentes em lugares diferentes e épocas diferentes. Isto cria, por vezes, dificuldades na sua tradução para uma língua ocidental. Por exemplo, toda a medicina tradicional chinesa tem por base o conceito de Yin e Yang. O passado é Yang e o futuro é Yin. Quanto ao presente, ele pode ser yin mas também yang.
B.F. – Considera benéfica a interacção entre MTC e medicina ocidental?
X.P. – As duas medicinas têm aspectos positivos e aspectos negativos. A medicina ocidental baseia-se em análises e radiografias, e não aborda o todo orgânico. Produz também muitos efeitos secundários, tóxicos A medicina tradicional chinesa trata o todo orgânico, e é eficaz na regulação de todo o corpo. É natural e mantém a sua ligação à natureza. Assim sendo, penso que a combinação das duas medicinas seria perfeita e muito benéfica para as pessoas.
B.F. – Veio a Portugal para entregar os primeiros diplomas de licenciatura de MTC conferidos pela Universidade de Nanquim. É um momento importante para a Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa de Lisboa...
X.P. - Estamos aqui para dar apoio ao José Faro e à Deolinda Fernandes, que têm desenvolvido um trabalho muito importante na Escola Superior de MTC. Queremos também dar a conhecer a MTC a todas as pessoas interessadas e, se possível, conseguir um apoio do Governo.
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