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Entrevista ao Professor José Faro (co-Director da ESMTC) PDF Imprimir e-mail

 Professor José Faro, co-director da ESMTC 

BeijaFlor Natural: É um dos directores da Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa (ESMTC) e é o presidente da Associação Profissional de Acupunctura e Medicina Tradicional Chinesa (APAMTC). Como é que chegou até aqui?
José Faro: No início dos anos 80, inscrevi-me num curso de acupunctura que existia em Lisboa. Quando comecei a exercer como acupunctor, acabei também por ensinar medicina tradicional chinesa, em 1988. A partir de 1993, a ESMTC começou a ser formada e pensámos que seria possível formar profissionais nesta área com cursos de fim-de-semana, durante três anos, mas a experiência demonstrou-nos que era pouco tempo. Começámos a trabalhar em parceria com a Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Nanquim e adquirimos, em 1996, as características que tem actualmente.

BN: Pode-se dizer que a Acupunctura é uma das terapias mais procuradas?
JF: Nós ensinamos acupunctura como vertente terapêutica integrada no quadro geral da MTC. A teoria que está por trás da acupunctura é a mesma que está por trás do uso de qualquer outra vertente. É o especialista da medicina chinesa que opta pelos princípios a usar.
Mas no Ocidente aconteceu um fenómeno: um grupo de investigadores franceses fez , no século XX, uma investigação sobre acupunctura que acabou por ganhar um relevo na Europa que não corresponde ao contexto normal da MTC. A acupunctura, embora se possa considerar como método de intervenção terapêutica muito abrangente, pode aparecer como veículo de expressão de uma medicina geral, mas não é a primeira escolha para as patologias.

BN: De acordo com declarações que fez ao jornal Diário de Notícias, na véspera da votação da lei, a expressão “medicinas” foi substituída por “terapias”. Esta mudança de palavras pode provocar uma diferença no fundamento das TNC?
JF: Não, no nosso ponto de vista, não existe diferença nenhuma, a questão é que sentimos que existem lobbies profissionais que, de alguma maneira, e face à derrota total dos seus pontos de vista que eram contrários à aprovação da lei, ainda conseguiram algumas concessões da parte do legislador que, na véspera, fez desaparecer a expressão “medicinas”. Da mesma maneira que a MTC iria ser regulamentada e também desapareceu do documento.

BN: ... O que acaba por não fazer muito sentido, uma vez que a MTC é o exercício simultâneo de várias vertentes na base do mesmo sistema...
JF: Sim, não faz qualquer sentido. Usar os vários pontos de acupunctura, ou usar uma dieta, ou usar as vertentes da medicina chinesa em conjunto, no fundo, é uma questão de escolher aquilo que é mais eficaz em determinado caso. O especialista é que tem de decidir, dadas as características do paciente. Esta divisão é absurda e é feita por parte de quem não tem conhecimentos mínimos na área e que, no entanto, se atreve a não ouvir o que os especialistas da área dizem e a ouvir os que não têm conhecimentos sobre a matéria.

BN: Relativamente ao funcionamento da comissão, os trabalhos estão bem encaminhados?
JF: A única reunião da comissão que houve, no passado dia 5 de Maio, representou um marco histórico depois da luta para regulamentar esta área, em nome da defesa dos pacientes, dos profissionais, e do funcionamento desta área. No entanto, houve uma primeira apreciação recíproca entre os representantes das áreas das TNC e os peritos que estão nomeados e verificou-se alguma discrepância de sensibilidades. Há um aspecto essencial da Lei 45/2003, Artigo 5º, que diz que “é reconhecida autonomia técnica e deontológica no exercício profissional da prática das terapêuticas não convencionais” e que não está contemplado na dinâmica funcional. Ou seja, há um grupo de peritos ligados às corporações médica e farmacêutica que, pela origem profissional e pela forma como se manifestaram na CTC, demonstram que a autonomia dos profissionais desta área não está salvaguardada. Isto é, esta maioria é estranha aos profissionais da TNC e nossa rival, pois há muito tempo que fazem os impossíveis para boicotar a nossa existência. Portanto, neste momento, no seio da CTC, estão a decorrer negociações de forma a encontrar um equilibrio interno. Não admitimos que a nossa liberdade de propor, tão só, seja cortada com uma comissão que é, na maioria, representante do lobbie médico e farmacêutico.

BN: Pode-se, assim, dizer que os representantes das medicinas convencionais encaram as TNC com maus olhos?
JF: Não, a generalidade da classe médica tem uma posição sensata em relação a estas áreas. A prova disso são os laços de colaboração cada vez mais frequentes que existem entre profissionais da nossa área e profissionais médicos. A questão é que existe um núcleo duro dentro da corporação médica que continua com a intenção de fazer passar a sua mensagem absolutamente ilegível pela sociedade moderna. Nem sequer são representativos em relação às classes profissionais a que pertencem.

BN: A procura das novas terapias tem aumentado em massa. Acha que as pessoas estão desiludidas com a medicina convencional?
JF: Recentemente, encontrei uma investigação feita nos anos 80 e publicada pelo British Medical Journal, que demonstrava que as pessoas que optam pelas TNC não deixam de parte a medicina convencional. Isto é,  falar de desilusão é demasiado forte. As pessoas usam os diversos meios que lhes são disponíveis no sentido de atingir um bem-estar. Não o fazem por questões ideológicas, ao contrário dos médicos que aderem excessivamente ao seu próprio sistema. Até porque, grande parte dos utentes das TNC são também assistidos medicamente e creio que deverá ser assim no futuro. Os trabalhos que decorrem desta regulamentação têm também o objectivo de fazer com que essa colaboração possa ser mais assumida. Esperemos que daqui nasça uma abertura de vias de comunicação mais seguras entre os vários intervenientes. 

*   

Entrevista ao Professor José Faro efectuada por Rita Estêvão e editada na Revista Beijaflor Natural* nº45, em Junho de 2005, no âmbito dos trabalhos da comissão técnica consultiva para regulamentação das medicinas não convencionais.

 

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