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Blog O que Arte Cura

A Beleza de Todas as Mãos

  • 20 de Janeiro, 2024
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Pediram-me no outro dia a receita das azevias dos meus pais, avós, bisavós, e sei lá a mais quantas gerações atrás pertence esta receita… Pela primeira vez li-a com diferentes olhos, porque se tratava de a transmitir.

De todas as vezes em que anteriormente a lera, estava tão impregnada do espírito da família, que nunca me tinha apercebido de certas estranhezas, para os dias de hoje. Refiro-me, por exemplo, à expressão “laranjas espremidas”. Hoje, qualquer receita falaria em sumo de laranja. E sabemos como o obtemos hoje, com um espremedor eléctrico. Mas ao ler com diferentes olhos a expressão “espremidas” saltaram perante mim as belas mãos da minha mãe (sempre achei que tinha mãos de pianista) espremendo, manualmente, as laranjas. Ou num espremedor manual, ou mesmo usando apenas as mãos. Talvez fosse esse sumo milagroso e curador a razão das suas belas mãos de longos dedos, e dos belos trabalhos que delas saíam, quer fossem tapetes, roupas, bordados, bolos ou pinturas, tudo ficava perfeito como as suas mãos. Eu olhava as minhas mãos pequenas e quadradas e achava-as algo desengraçadas, assim como as coisas que delas saíam, pois tinha um particular talento para partir coisas e os bolos saíam-me mal. Hoje amo as minhas mãos porque descobri nelas o esboço, que são as mãos do meu pai: recordo-as saltando sobre o teclado da máquina, entusiasmadas e alegres, e vejo as minhas, com as dele, seguindo os seus dedos rápidos, reflexivos e imaginativos.

Há mãos que voam como águias, outras que pousam como pensos. As mãos da minha mãe, tendo a elegância das asas, sabiam pousar na matéria e extrair precioso minério, bem como curar feridas. As do meu pai, terrenas e sólidas, voavam sobre o teclado e recolhiam do ar as palavras que a aérea imaginação lhe solicitava. Tanto as mãos da minha mãe como as do meu pai eram conhecedoras da elegância do voo, mas cada um usava-as à sua maneira, segundo o seu talento. E é isto o casamento. Conhecimento e amor.

Vejamos uma passagem do livro O Simbolismo do Corpo Humano, de Annick de Souzenelle:

«A mão, em hebreu Yad […] está ligada ao conhecimento: Yada […] – eu “conheço” também signifiva “eu amo”. Não se trata, para os Hebreus, de uma qualidade intelectual, mas de um conhecimento experimental […]. Este conhecimento é casamento. É amor.

Insisto na qualidade – eu diria concreta – deste conhecimento, compreendendo que este “concreto” exige uma qualidade de receptividade, mas esta receptividade passa pelo nosso corpo, tem a ver com os nossos sentidos tornados atentos e abertos ao Real.

A realidade opera sobre um quadro infinitamente extenso de comprimentos de onda; uma praia muito estreita destas ondas toca os nossos sentidos imediatos, mas os sentidos do Homem que “sobe a Árvore” abrem-se sobre as praias cada vez mais vastas da Realidade.
Por muito abstracta que ela possa ser para o Homem banal, esta realidade é concreta para aquele cujos sentidos lhe permitem tocar o coração, o centro das coisas, dos seres, do mundo! As nossas sensações não estão apenas ligadas à matéria na sua extensão palpável. A Glória Divina, também ela é palpável. Mas uma contém a outra e é cultivando a matéria, interrogando-a, amando-a, que ela se dá a conhecer, se abre e glorifica o seu criador.»

Risoleta Pinto Pedro

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