Esvaziar a taça


Depois de ter percorrido a Índia, Bodhidharma foi à China e instalou-se numa região onde vivia um sábio cuja reputação e sabedoria haviam seduzido todos os seus habitantes e mais além. O seu saber era tão vasto…

Transforma-te num Rio


Estórias do Oriente

Episódio #2 Podcast ESMTC

 

Buda atravessava uma aldeia e as pessoas aproximavam-se dele e insultavam-no. Elas empregavam todas as palavras insultuosas que conheciam – todos os palavrões que sabiam.

Buda ficou ali, a ouvir em silêncio, atentamente, e depois disse:

“Obrigado por virem ao meu encontro, mas estou com pressa. Tenho de ir para a próxima aldeia, as pessoas estão à minha espera. Não posso dispensar-vos mais tempo hoje, mas amanhã, quando regressar, terei mais tempo. Poderão reunir-se de novo e se alguma coisa ficou por dizer, poderão fazê-lo amanhã. Mas hoje terão de me desculpar.”

Aquela gente nem queria acreditar no que os seus ouvidos tinham escutado, no que os seus olhos tinham visto: aquele homem permaneceu absolutamente impassível, imperturbável.

Então, uma delas perguntou:

“Não nos ouviu? Temos estado a ofendê-lo de todas as maneiras e você nem sequer respondeu.”

Buda retorquiu:

” Se queriam uma resposta, então chegaram demasiado tarde. Deveriam ter vindo há dez anos, na altura em que eu vos teria respondido. Mas durante esses dez anos deixei de ser manipulado pelos outros. Já não sou um escravo, sou o meu próprio dono. Atuo de acordo com a minha paz interior. Não me podem forçar a fazer uma coisa. Está tudo bem – quiseram ofender-me, pois ofenderam. Sintam-se realizados; fizeram o vosso trabalho muito bem feito. Mas no que me diz respeito, não aceito os vossos insultos e, a menos que os aceite, eles perdem qualquer significado quando penetram na minha paz interior.”

Quando alguém o insulta, se se torna um receptor, se aceita o que essa pessoa diz, só poderá reagir e entrar no estado do outro.
Mas se não aceitar, se simplesmente permanecer indiferente, se mantiver as distâncias, se ficar calmo, o que pode essa pessoa fazer?

Buda disse:

” Alguém pode atirar uma tocha em fogo para o rio. Ela permanecerá a arder até atingir a água. Assim que cair no rio, todo o fogo se extinguirá – o rio arrefece-a. Pois eu tornei-me um rio.
Vocês atiraram-me ofensas – elas são fogo quando as atiram, mas mal me atingem o seu fogo perde-se na minha frieza. Elas já não doem. Vocês atiram espinhos, mas ao caírem no meu silêncio eles convertem-se em flores. Eu actuo fora da minha própria natureza intrínseca.”

 

Ficha técnica

Título: Transforma-te num rio

Sonoplastia: ESMTC

Contadora desta estória: Inês Lomba

O Pulso da Imperatriz


Estórias do Oriente

Esta é uma história sobre pulsologia, um dos métodos de diagnóstico da Medicina tradicional chinesa.

Antigamente na China as concubinas e a Imperatriz quando precisavam de ser consultadas por um médico, o médico não as podia consultar como os outros pacientes.

As mulheres que viviam junto do Imperador ficavam separadas por uma cortina e apenas colocavam as suas mãos à vista do médico.

Era através da palpação dos pulsos que o médico analisava o estado interno dos seus órgãos e fazia a prescrição da matéria médica adequada.

Nessa altura existia uma Imperatriz que era muito exigente, e queria ter a certeza que o seu médico era o melhor. Então decidiu polo à prova.

Mandou chamar o médico para a consultar e disse-lhe que ele teria de a consultar utilizando um fio que ela ia atar ao redor dos seus pulsos.

Como estavam separados pela cortina, a Imperatriz em vez de atar o fio aos seus pulsos atou o fio à perna de uma cadeira. O médico disse-lhe que não sentia nada que o fio estava atado a um ser inanimado, mas ela ainda não estava satisfeita e resolveu atar o fio à pata do seu cão, o médico disse-lhe que o que sentia era o pulso de um animal mas não era o pulso da Imperatriz.

A Imperatriz ficou muito impressionada e passou a colocar as suas mãos à vista do médico sem que era consultada.

Esta história demonstra porque a prática da pulsologia no diagnóstico da medicina tradicional chinesa foi tão desenvolvida, naquela altura qualquer falha do médico podia custar-lhe a vida às mãos do Imperador.